Por Robinson Cannaval Junior, engenheiro florestal e diretor-executivo do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais – IPEF, a convite da Florestar

Neste ano temos a COP no Brasil. É muito importante destacar que a COP, Conferência das Partes, de certa forma ainda que simbólica, teve o seu DNA no Brasil, em 1992, quando chefes de Estado de 198 países se reuniram no Rio de Janeiro para participar da Cúpula da Terra, que mais tarde ficou conhecido como Rio 92. Na ocasião foi um marco no desenvolvimento de um tema que, hoje, recebe o nome de “multilateralismo climático”. Ele é guiado pela ideia de que desafios globais – como o aumento das temperaturas médias do planeta – só podem ser resolvidos com diálogo e com a colaboração de todo o mundo.

Foi neste espírito que chefes de Estado presentes à Rio 92 assinaram um tratado de nome: “Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas”, mais conhecido pela sigla em inglês UNFCCC.

Ainda estudante de engenharia florestal à época, me lembro que os carros que recepcionaram os chefes de Estado e comitiva eram carros fabricados no Brasil, movidos 100% à álcool combustível, uma demonstração ao mundo de tecnologia mais sustentável, viável economicamente e aplicada em grande escala num país de dimensões continentais. O Brasil demonstrou ao mundo um caminho viável de inovação e tecnologia, mais sustentável, renovável e de menor emissão de gás carbônico (CO2) de origem fóssil, um dos principais gases do efeito estufa que eleva a temperatura na atmosfera em nível global.

Dado a necessidade mundial de redução do aumento de emissão dos gases do efeito estufa na atmosfera, é muito comum observar nos meios de comunicação muita gente influente falando da necessidade de descarbonização da economia. Cabe esclarecer que o mais correto seria dizer “desfossilização” da economia, ou seja, redução da emissão do gás carbônico (CO2) de origem fóssil, exemplo: petróleo, carvão mineral, gás natural ou liquefeito de petróleo.
De maneira oposta, a emissão de gás carbônico pela queima de biomassa vegetal ou biocombustível emite gás carbônico biogênico, ou seja, gás carbônico subtraído da atmosfera pela fotossíntese das plantas, concentrado na forma de biomassa, que quando utilizado como biocombustível, retorna à atmosfera sem adicionalidade, ou seja, com efeito neutro, uma vez que retorna aonde preexistia, diferenciando-se diametralmente do carbono de origem fóssil acumulado no subsolo terrestre e marinho há milhões de anos.

De maneira prática, está presente no nosso dia a dia quando abastecemos veículos, com combustíveis fósseis ou biocombustível. O mesmo álcool combustível consumido na RIO 92, atualmente produzido de milho ou cana-de-açúcar, é um biocombustível que emite gás carbônico de origem biogênica, ou seja, carbono capturado da atmosfera, pelos vegetais milho ou cana de açúcar, portanto sem adicionalidade contributiva ao efeito estufa, se comparados ao uso de gasolina ou diesel.

Isto posto, vemos que a rota tecnológica da combustão para diversas finalidades não é exatamente um problema para o meio ambiente, o grande fator a ser considerado está intrinsicamente relacionado à origem do combustível utilizado, fóssil ou biogênico. É isso que faz a diferença no efeito estufa e consequentemente a elevação da temperatura média global.

Conceituado a importância do carbono biogênico via biomassa e sua importância nos gases do efeito estufa, cabe destacar que as florestas naturais e plantadas são enormes reservatórios de carbono biogênico na forma de biomassa, portanto importantíssimas e fundamentais do ponto de vista de busca do equilíbrio climático no planeta.
A florestas são essenciais à biodiversidade, ciclo da água e equilíbrio ecológico, atuam diretamente na manutenção do equilíbrio do clima terrestre de muitas variadas maneiras, todavia, duas se destacam no específico contexto dos gases do efeito estufa:

Florestas naturais – são reservatórios imprescindíveis na manutenção de gás carbônico na forma de biomassa vegetal acima e abaixo do solo. Todos os esforços de evitar desmatamento ilegal e a realização de manejo florestal sustentável devem ser feitos para a sua manutenção, seja na forma de conservação, uso sustentável, ou preservação.

Florestas plantadas – plantio de árvores com finalidade de conservação ou dedicadas exclusivamente à produção econômica de matéria-prima e insumos renováveis e sustentáveis para atender às necessidades da sociedade. Também são reservatórios de gás carbônico, todavia na forma de estoque dinâmico de floresta, decorrente dos processos contínuos de plantio, crescimento, colheita e renovação dos plantios.

Ambas as florestas são fundamentais na equação dos gases do efeito estufa na atmosfera, as florestas naturais porque conservam o carbono já estocado, razão pela qual os incêndios devem ser evitados a todo custo, pois adicionam CO2 e poluição na atmosfera, sem nenhum benefício econômico à sociedade.

As florestas plantadas certificadas e reconhecidas como sustentáveis por padrões internacionais, exercem papel fundamental ao produzir matéria-prima e insumos sustentáveis e renováveis. Interessa ao meio ambiente, e sustentabilidade e sociedade que estas florestas sejam as mais produtivas possíveis, pois desta maneira produz-se mais em menos tempo e menor área. Isso reduz a pressão por supressão de florestas nativas para atender as necessidades de insumos e matérias-primas da sociedade. A floresta plantada é uma floresta protetora das florestas naturais.

O uso da madeira, quer seja na forma de insumo combustível, ou matéria-prima, contribui para a mitigação e sequestro de gases do efeito estufa, respectivamente.

Quando na forma de insumo, (lenha, cavaco e derivados) são biocombustíveis com características de neutralidade em gases do efeito estufa, como qualquer outra biomassa.

Quando na forma de matéria-prima, o CO2 fica retido no produto em que faz parte enquanto este existir. Quando deixa de existir, e isto varia de produto para produto, o CO2 retorna com maior ou menor velocidade à atmosfera. Desta maneira quanto mais produtos de base florestal, oriundos de floresta corretamente manejada, maior a contribuição para a mitigação dos gases de efeito estufa.

As árvores e suas diversidades de características físicas e químicas na madeira constituem uma das mais belas estruturas de bioengenharia criadas pela natureza. Esta diversidade permite soluções futuras de altíssima tecnologia para atender às mais diversas necessidades da humanidade, além de contribuir de maneira muito positiva para a redução do efeito estufa e as mudanças climáticas.

O Brasil é o único país do mundo cujo nome e primeira atividade econômica derivaram de uma árvore, a exploração do pau brasil. Muitos erros foram cometidos ao longo de séculos desde então. Por um lado, a COP é um momento de reflexão e tomada de posição por parte dos chefes de Estado. Por outro lado, ao nível de indivíduos consumidores, um momento para reflexão sobre nossos hábitos e comportamentos de consumo, para que estejamos cada vez mais conscientes e alinhados às necessidades do planeta e da humanidade.

“Devemos consumir insumos e produtos de origem florestal sempre que possível, e insumos e produtos de origem fóssil somente quando necessário”.

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